MARIKA HACKMAN – ANY HUMAN FRIEND

E eis que ao terceiro disco, a multi-instrumentista britânica Marika Hackman entra a pés juntos e parte tudo com uma pinta inegável de estrela de rock, expondo com um sentido de humor, umas vezes inexpressivo, outras vezes acutilante, alguns dos seus desejos mais inquietos e confusos, bem como todos os processos de negação e aceitação a eles associados.

O título do terceiro disco de Marika Hackman foi retirado de uma frase que a britânica ouviu num documentário sobre os laços de amizade entre crianças e adultos que sofrem de demência. A frase encaixa na perfeição num disco que fala sobre instintos e pensamentos infantis não filtrados.
A capa do disco, na qual aparece praticamente despida com um leitão ao colo e um olhar quase inexpressivo, abre alas a um desfile de canções que a expõem de uma forma cómica e divertida e nos fazem perceber de imediato que já não estamos perante a mesma artista que em 2015 lançou um disco de folk tremendamente fofinho ou que em 2017 se andou a recriar musicalmente com um experimentalismo cheio de pinta. Hackman está mais confiante do que nunca e a uma primeira audição rápida deste novo disco ficamos com a sensação que estamos perante uma artista completamente diferente… com a tal pinta inegável de estrela de rock! Os singles The One e I’m Not Where You Are são exemplo disso mesmo – dois socardos bem mandados. E mesmo aqueles momentos mais serenos do disco como Come Undone e a sua reflexão delicada sobre as fodas de uma só noite continuam de uma acutilância tremenda e não dão sequer tempo para ganhar o equilíbrio necessário que nos permita recuperar dos dois socardos bem mandados que referi anteriormente.
Crueldade, alegria, egoísmo… Hackman canta sobre lutar contra os espartilhos que a vida lhe impõe, fala sobre masturbação e sexo, sobre chamar desesperadamente à atenção e ao mesmo tempo estar emocionalmente indisponível. O peso da normalidade, na vida e nos relacionamentos, impelem-na a desejar algo mais, algo diferente e excitante. A merda é saber como lá chegar e nenhuma destas onze maravilhosas canções oferece respostas ou soluções sobre o assunto, mas retratam o envolvimento fervoroso de Hackman enquanto se debate para as encontrar, não esquecendo nunca todas as suas fragilidades. Fragilidades essas que na última faixa do disco a levam a cantar “Cause everybody wants to be made of stone” em modo aceita que dói menos… afinal somos todos feitos de carne e osso.

 

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